
Decidi oferecer-me como voluntário num dos programas de apoio aos sem-abrigo. Era uma forma de me manter ocupado e quem sabe conhecer os melhores locais e rotinas de um futuro que certamente me esperava. Nesses dias fazia um frio terrível e a caminhada passava junto ás vivendas de luxo em direcção ás sombras e ao cartão. A rotina do trabalho era interessante, eram dados conselhos médicos, um reforço alimentar, agasalhos etc. A minha parte era levar as sopas, o que era complicado porque geralmente estava muito quente e frequentemente queimava os dedos todos. Dirigi-me a um indigente que estava deitado junto á estação de comboios, aproximei-me com a sopa e não resisti a começar uma pequena conversa. O António (era esse o seu nome) falava enquanto sorvia a sopa.
_ Como chegou a esta situação?
Perguntei repleto de curiosidade.
_Sabe é fácil…. Muito fácil. Primeiro perdi o emprego, antes já tinha perdido a família e a cabra da minha mulher deixou-me a muitos anos atrás.
A parte do emprego até me fazia lembrara alguém, alguém não 600 mil alguéns.
_ E perdeu o emprego porquê?
_ É simples. Incendiei a empresa onde trabalhava. Depois perdi todos os bens em indemnizações e advogados.
_ E porque o fez?
_ Por causa delas. …
Aí a sua voz tornou-se sombria.
_Elas quem?
Perguntei
_Estavam em toda a parte. Queriam matar-me. Foram elas que me levaram á ruína.
António chorava como um monte de cinzento trémulo. Continuou:
_Queriam matar-me! Queriam acabar comigo.
_Quem? Perguntei expectante. As formigas?
O meu coração batia acelerado.
_ As formigas? Quais formigas? Você está doido ou quê? As galinhas. Eu trabalhava num aviário e quando se começou falar na gripe das aves eu sabia que ia aparecer ali. Eu sempre as odiei. Odeio-o galinhas. (Aqui começou a berrar). Odeio-as. E você deslarge-me porra! Que é que você quer. Deslargue-me!
Afastei-me perante o olhar de reprovação dos meus colegas, o que fizeste ao homem pareciam dizer.
Agora sabia, estava obcecado, ainda bem que não trabalho num formigueiro. Mais uma noite parva. Enfim.