Sábado, Março 18, 2006

Dia 8

A cozinha estava um caos, tudo tirado dos armários, as bolachas foram retalhadas e o açucareiro estava quase vazio e húmido. Não havia formigas á vistas. Mas era quase impossível que um bicho como elas fizesse aquilo. Parecia mais obra de um esquilo, dum texugo, dum estrunfe … sei lá. Ia investigar quando parou na rua uma ambulância. Passos apressados escada acima e ouço o que parece ser um trovão. Subi as escadas e vi que eram os bombeiros e acabavam de rebentar a porta do vizinho. Ò diabo! Pensei. Que se passa aqui?
Os bombeiros entraram juntamente com dois paramédicos. Isto não me estava a cheirar bem. Por falar nisso, por acaso, cheirava ali um bocado mal. Saíram de lá com uma maca tapada com um plastificado azul-escuro. Foram embora. Na rua juntaram-se algumas pessoas, vizinhos e transeuntes. A vizinha do lado da frente disse que foi a filha dele que lançou o alerta. O Sr. Adelino não lhe telefonava á algum tempo, mas como só o fazia ao domingo não se preocupou. Alertou uma vizinha amiga que tentou bater á porta. Resolveram chamar os bombeiros. O Sr. Adelino estava morto á alguns dias.

Dia 7

Decidi oferecer-me como voluntário num dos programas de apoio aos sem-abrigo. Era uma forma de me manter ocupado e quem sabe conhecer os melhores locais e rotinas de um futuro que certamente me esperava. Nesses dias fazia um frio terrível e a caminhada passava junto ás vivendas de luxo em direcção ás sombras e ao cartão. A rotina do trabalho era interessante, eram dados conselhos médicos, um reforço alimentar, agasalhos etc. A minha parte era levar as sopas, o que era complicado porque geralmente estava muito quente e frequentemente queimava os dedos todos. Dirigi-me a um indigente que estava deitado junto á estação de comboios, aproximei-me com a sopa e não resisti a começar uma pequena conversa. O António (era esse o seu nome) falava enquanto sorvia a sopa.
_ Como chegou a esta situação?
Perguntei repleto de curiosidade.
_Sabe é fácil…. Muito fácil. Primeiro perdi o emprego, antes já tinha perdido a família e a cabra da minha mulher deixou-me a muitos anos atrás.
A parte do emprego até me fazia lembrara alguém, alguém não 600 mil alguéns.
_ E perdeu o emprego porquê?
_ É simples. Incendiei a empresa onde trabalhava. Depois perdi todos os bens em indemnizações e advogados.
_ E porque o fez?
_ Por causa delas. …
Aí a sua voz tornou-se sombria.
_Elas quem?
Perguntei
_Estavam em toda a parte. Queriam matar-me. Foram elas que me levaram á ruína.
António chorava como um monte de cinzento trémulo. Continuou:
_Queriam matar-me! Queriam acabar comigo.
_Quem? Perguntei expectante. As formigas?
O meu coração batia acelerado.
_ As formigas? Quais formigas? Você está doido ou quê? As galinhas. Eu trabalhava num aviário e quando se começou falar na gripe das aves eu sabia que ia aparecer ali. Eu sempre as odiei. Odeio-o galinhas. (Aqui começou a berrar). Odeio-as. E você deslarge-me porra! Que é que você quer. Deslargue-me!
Afastei-me perante o olhar de reprovação dos meus colegas, o que fizeste ao homem pareciam dizer.
Agora sabia, estava obcecado, ainda bem que não trabalho num formigueiro. Mais uma noite parva. Enfim.

Sábado, Março 04, 2006

Dia 6

Nada a descrever apenas a dor de cabeça da noite de borga. A formiga apenas apareceu nas minhas preocupações. Por falar nisso o gasóleo subiu outra vez, o que me fazia pensar que bom era não ter carro. Se tivesse apontava-o à formiga azul e atropelava-a. Enfim.

Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006

Dia 5

O jantar com os amigos tinha corrido bem. O vinho era bom, a comida bem temperada e as conversas animadas. O serão levou-nos por essas ruas estreitas que fazem acastelar bares e aglomeram pessoas errantes. Depois de uns bons copos num local estreito demais e cheio de fumo, saí para o exterior. A noite estava escura mas os candeeiros e os néons faziam acreditar que ainda era só o final do dia. Tirei o maço de cigarros e procurei o isqueiro no bolso direito do casaco, sinto algo na mão, olho para o isqueiro e lá estava ela, a formiga azul. Dou um pulo para trás e sacudo a mão, olho para o chão e ainda a vejo a desaparecer entre o lixo do passeio. Fiquei impressionado, era a primeira aparição no exterior, fora de casa, longe de casa… Meu Deus! Ela tinha vindo no meu casaco, ela não, uma delas, eram várias agora tinha a certeza. Porque entrou no meu casaco? Começava a pensar que era uma perseguição deliberada. A noite acabou. Fui para casa, o sono foi agitado pelos gins e pela recordação do inesperado encontro.

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006

Dia 4

Acordei com um dor de cabeça tremenda, fartei-me de vomitar e sinto-me bastante mal disposto. Fui comer uma peça de fruta e fiquei ainda pior. Depois de tomar um banho deitei-me no sofá a ver as últimas sobre a gripe das aves e pensei que uma pandemia em Portugal acabaria certamente com o desemprego, só tinha era que me manter vivo o que num dia como hoje não me parecia muito provável. O problema das reformas também acabava, os poucos sobreviventes do nosso sistema de saúde que tivessem mais de 65 anos certamente iriam ter aumentos á vista. Olho para o tecto, olho de novo e vejo uma fila azul a caminhar para um pequeno buraco na esquina, eram várias formigas azuis a entrarem na parede. Fui buscar uma cadeira e aproximei-me mesmo a tempo de ver a ultima entrar. Estava tramado, eram várias e estavam já a passar para outros locais, o buraco devia dar ao apartamento do vizinho. Fui buscar um lápis e tapei o buraco. Depois ocorreu-me que podia ser por ali que entraram, resolvi falar com o vizinho mas ninguém atendeu. Bom o velhote deve ter saído para conviver no jardim, afinal a solidão de um viúvo de longa data não deve ser fácil. Já não o vejo faz muito tempo, mesmo muito, pensando bem não o vejo nem ouço barulho no andar de cima faz uma semana. Deve ter ido para Alpiarça para casa da filha, sei lá. Acho que as formigas foram todas para cima. Paz finalmente.

Dia 3

Mais um dia sem ver a criatura a noite aproximava-se e tudo parecia melhor. O Presidente da República ia condecorando pessoas, o Bill Gates vem a Portugal, o Cavaco vai ser Presidente, bem afinal não estava tudo assim tão bem. Por falar nisso lembrei-me do Alegre, da Pátria dita com a boca cheia e enchi-me de força para expulsar a criatura do meu território. Comprei vários venenos que espalhei por locais estratégicos da casa: na cozinha, dentro dos armários, na fruteira, no ecrã da televisão, no quarto, na almofada bem nos locais onde tinha avistado a criatura. Deve ter funcionado pois nesse dia não a vi.

Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

Dia 2

Andava preocupado com o desemprego crescente do país. A ministra da educação só tinha ideias geniais que pareciam tiradas de um manual de nazismo civilizado e cada mais pensava em ir trabalhar para as obras. Mas nem isso era boa ideia porque os ucranianos tinham já ocupado os melhores lugares e não eram tão exigente nos salários como eu. Outro problema e que ainda tinha esperança de ter alguma proposta interessante no campo profissional, porque noutros campos já nem esperança tinha enfim. Nesse dia decidi voltar para casa depois de uma tarde passada a jogar matraquilhos com um reformado de 70 anos, que por acaso ganhou na melhor de 20 e nem percebi bem como, teve sorte. Chegado a casa e como começava a anoitecer fechei as janelas da sala e acendi as luzes, pensei na formiga mistério, mas nada a vista. Peguei no comando e liguei a televisão e foi então que vi uma mancha no ecrã, lá estava ela a atravessar a televisão como se fosse uma passadeira. Peguei numa almofada que estava no sofá e atirei-me a tudo o que mexia e era azul. O resultado foi nulo, nada, desapareceu de novo. Decidi investigar procurei em livros e na net, tudo o que podia saber sobre formigas azuis, não cheguei a conclusão nenhuma, não sabia o que fazer. Pensei que a ministra da educação devia sentir-se assim também e por isso mesmo só fazia asneiras. Não podia cair no mesmo erro tinha que manter a minha mente serena. A noite foi tranquila.

O Inicio de tudo-Dia 1

Apareceram a primeira vez faz hoje um mês e não mais deixei de pensar nelas. Estava na cozinha e vi aparecer um ser debaixo da mesa e quem era? Dáámm … uma formiga azul. Logo nesse dia fiquei preocupado. Tentei esborracha-la no chão mas fugiu, procurei-a mas desapareceu. Bom adiante. Peguei no pão que ia para comer e aproximei-o da boca, mas nem sei porquê resolvi voltar a olhar. No cima da sandes lá estava ela a olhar para mim a formiga azul. Sacudia-a e persegui-a pela cozinha já de vassoura em punho mas desapareceu de novo. Achei estranho mas afinal era apenas uma formiga. Devo descreve-la para terem uma ideia melhor do que estou a falar. Não era uma formiga normal tinha cerca do dobro do tamanho das vulgares formigas rafeiras que andam por casa e era toda azul, não um azul esbatido mas sim de um azul florescente como se fosse radioactiva ou sei lá. Para mim aquilo só podia ser coisa do demo. Nesse dia não a vi mais.
Depois de uma noite bem dormida acordei com o som irritante do despertador. Num gesto mecânico acendi a luz do candeeiro da mesinha de cabeceira e aconcheguei-me para o lado direito da cama para preguiçar mais um bocado, afinal ainda era só uma da tarde. Semicerrei os olhos e vejo algo na almofada, abro-os de novo num repente e lá estava ela a formiga azul a mesma da cozinha, vi logo que era a ela, a cara cínica o olhar diabólico só podia ser a criatura. Levantei-me num pulo, revirei a almofada, a cama, o quarto, mas nada, aquilo estava a começar a preocupar-me seriamente.
Este foi só o primeiro encontro de muitos que se seguiram e de graus mais avançados, devo dizer que estes acontecimentos me levaram a fazer um diário com todos os factos relacionados com a pérfida criatura, porque só assim poderia encontrar pistas para melhor explicar tal ser. Mais tarde resolvi publicar os relatos na esperança que outros também perseguidos por estes seres azuis pudessem dar-me as suas opiniões ou mesmo trocar experiências que se podem revelar importantes para eliminar as criaturas de vez.